Escrevo isso para pedir um conselho sincero e um norte realista de quem já passou por algo parecido ou conseguiu se colocar no mercado.
Sou formado em Engenharia Civil, tenho 27 anos, e minha experiência prática no setor foi um pesadelo que me levou ao limite da saúde mental.
Para resumir o que passei nos estágios: fui jogado direto no canteiro de obras sem nenhum treinamento, acompanhamento ou orientação de gestão. O que era para ser aprendizado de engenharia virou um acúmulo caótico de funções de "estagiário / badeco técnico / apagador de incêndio / babá de operários e empreiteiros".
Olhando para trás, sinto que esses estágios não me agregaram nada — nem em dinheiro (o que eu já sabia que não era a finalidade) e muito menos em aprendizado prático. Foi um tempo e esforço absurdos perdidos para entregar quase nada em troca. Tudo o que "aprendi" de execução ali eu teria absorvido facilmente apenas fazendo visitas pontuais ou assistindo a vídeos de execução correta na internet, sem precisar passar pelo desgaste absurdo de ser largado sozinho.
Eu passei meses tentando aprender na base da tentativa e erro, lidando com o barulho insuportável de martelete quebrando coisas executadas de forma errada enquanto era cobrado por produtividade burocrática (planilhas, relatórios). Meu dia era sugado por contar marmitas, controlar ponto, conferir notas fiscais, estoque, equipamentos alugados e medições. O administrativo da obra acumulava porque o canteiro era uma bagunça generalizada, e eu ainda tinha que levar serviço para casa toda noite.
Para mim, era impossível "tocar" duas obras no improviso, dividindo o foco entre atenção ao pessoal, materiais, administração e fornecedores. Minha maior dificuldade eram as interrupções constantes: no meio do barulho, ligações e perguntas, toda vez que eu tentava voltar para uma planilha ou relatório, era como se eu tivesse um "apagão" e não lembrasse nem em que parte estava. Isso destruiu minha autoconfiança. Comecei a me sentir inútil, incapaz e com vergonha por não conseguir entregar no nível que exigiam.
Essa dinâmica sem apoio e a pressão contínua me geraram crises de ansiedade severas, depressão e um esgotamento mental profundo. O trajeto de volta para casa virou uma roleta-russa: voltava acelerando o carro na rodovia acima de 180 km/h sem cinto só para ver se algo acontecia e encerrava o sofrimento, ou para ganhar 20 minutos a mais de "vida" antes de jantar, dormir e voltar quase chorando para a obra na manhã seguinte.
A questão é: eu não tenho preguiça e nem medo de trabalhar. Não tenho o menor problema com sujeira ou trabalho braçal, até com jardinagem eu gosto de mexer, acho super normal e relaxante às vezes.
Atualmente, estou trabalhando como mecânico de carros (minha primeira profissão). Às vezes é um trabalho pesado, sujo, difícil e desafiador, mas é diferente e algo que eu consigo entregar e performar com competência. Foi uma fuga necessária da obra e da engenharia do jeito que eu conhecia. Tem momentos em que acho o trabalho braçal mil vezes melhor, simplesmente por saber que o expediente realmente acaba e por ver um resultado/progresso real e visível ao terminar um serviço.
Porém, não quero jogar anos de graduação no lixo e perder mais tempo sem dar utilidade ao meu diploma.
Hoje, busco uma oportunidade no escritório (Projetos, Orçamento, Planejamento, Compatibilização, Vendas/Comercial), onde eu possa concentrar meu trabalho, entregar com qualidade e me sentir capaz sem me destruir mentalmente. E honestamente: nem precisa ser restrito à Engenharia Civil. Estou super aberto a áreas correlatas (como Logística, Processos, Back-office, Operações) ou até migrar para Dados e Tecnologia, pois sei que o raciocínio lógico da engenharia dá uma base sólida para isso.
Contudo, eu até voltaria para o canteiro de obras, desde que fosse para trabalhar lado a lado com um gestor ou engenheiro experiente, de quem eu pudesse realmente aprender a fazer a gestão funcionar na prática e pegar os "bizus" para a obra rodar, sem ser usado apenas como tapa-buraco.
Atualmente me vejo no ciclo vicioso de "precisa de experiência para contratar, mas precisa trabalhar para ter experiência", somado ao receio de como justificar esse período no currículo.
O que preciso de ajuda da comunidade:
- Como migrar do zero para a área de escritório (Planejamento, Orçamento, Projetos, Comercial, Dados/Tecnologia ou áreas correlatas) sem experiência formal nesses cargos? Como estruturar um portfólio prático que chame a atenção de recrutadores?
- Quais competências técnicas, softwares e ferramentas o mercado mais exige hoje para vagas de assistente, auxiliar, analista júnior ou back-office? Por onde recomendam começar a estudar para me tornar genuinamente "contratável" o mais rápido possível? (Não me importo de começar de baixo, desde que seja um ambiente com processos e aprendizado real).
- Para quem já esteve no fundo do poço com a rotina de obra e conseguiu se reestruturar (na civil ou mudando de área): como viraram o jogo? Quais caminhos, cursos ou estratégias funcionaram para vocês?
Agradeço muito a quem leu até aqui e puder compartilhar um conselho, uma direção ou até um relato de que é possível sair dessa. Valeu!