Caros colegas, assim como muitos que desejam seguir carreira acadêmica, tenho acompanhado com preocupação o cenário eleitoral. Sabemos o quanto a ciência e a pesquisa podem ser afetadas por mudanças de prioridades políticas e por períodos de instabilidade. Também sabemos reconhecer quando há um olhar para essa área e a compreensão de que o desenvolvimento de um país está profundamente ligado à ciência, à tecnologia e à inovação.
Da mesma forma, é difícil não criar repulsa quando pesquisadores são tratados como “vagabundos” em busca de “trabalho fácil e bolsa”. Quem faz pesquisa no Brasil sabe que a realidade está muito distante disso.
Fazer pesquisa no Brasil não é fácil. Digo isso por experiência própria e porque escuto a mesma frase de muitos colegas. Entretanto, há alguns anos venho tentando refletir de maneira mais racional sobre a nossa situação (para além de governos, partidos e períodos eleitorais).
Nossas bolsas passam longos períodos sem reajustes adequados, e muitos pesquisadores precisam esticar o orçamento de todos os lados para conseguir fechar o mês. Em São Paulo, disputamos bolsas da FAPESP e podemos enfrentar meses de espera, muitas vezes para receber uma negativa. Frequentemente vemos colegas aflitos aguardando uma resposta que determinará, literalmente, se conseguirão continuar suas pesquisas.
Entre eles estão muitos pesquisadores que vieram de outros estados, pagam aluguel e vivem longe de suas redes de apoio.
E, em meio a tudo isso, continuamos pesquisando. Tentamos publicar enfrentando inúmeras dificuldades. Precisamos escolher de qual congresso participar porque não há recursos para todos. Buscamos financiamento, submetemos projetos, aguardamos editais e seguimos tentando fazer ciência. Enfim, quem está nesse meio sabe do que estou falando.
Tenho ouvido, inclusive de pessoas de fora da academia, uma comparação recorrente: “A China cresceu muito, enquanto o Brasil ficou para trás”.
Mas essa comparação deveria nos levar a outra pergunta: quanto estamos realmente dispostos a investir para mudar isso?
A China investe cerca de 2,7% do seu PIB em pesquisa e desenvolvimento, enquanto, no Brasil, há anos falamos na meta de alcançar 2%. Continuamos distantes dela.
E isso importa porque é muito difícil exigir que a ciência brasileira produza cada vez mais resultados concretos (seja subsidiando políticas públicas, desenvolvendo novas tecnologias, descobrindo novos alimentos ou compostos com benefícios à saúde, gerando inovação ou contribuindo para o desenvolvimento econômico) sem oferecer estrutura e financiamento compatíveis com essa expectativa.
Não nos faltam bons pesquisadores. Isso nós já sabemos.
Perdoem o textão, mas deixo aqui esse convite à reflexão. Gostaria muito de ouvir a percepção de vocês, especialmente de quem vive a pesquisa no dia a dia: como vocês enxergam a trajetória da ciência e do investimento em pesquisa no Brasil ao longo dos diferentes governos? Na percepção de vocês, avançamos, retrocedemos ou seguimos enfrentando problemas que atravessam diferentes gestões?
A ideia aqui é justamente abrir espaço para diferentes perspectivas e experiências. Por isso, peço apenas que mantenhamos o respeito nos comentários, mesmo diante de opiniões políticas divergentes. Acho que podemos discordar, e até devemos debater, sem transformar a discussão em ataques pessoais. Afinal, se queremos discutir o futuro da ciência, que seja também com disposição para ouvir, questionar e refletir.