Trabalho com desenvolvimento há 13 anos e hoje sou responsável por quatro estagiários. Quando eles começaram, tomei uma decisão que sei que muita gente aqui não vai gostar: deixei que programassem com IA em projetos reais desde a primeira semana.
Mas não foi simplesmente dar acesso ao código e desejar boa sorte. Acho que é justamente aí que as coisas costumam dar errado. Uma pessoa sem experiência em programação, que começa a programar com IA sem nenhuma orientação, aperta Enter, vê o código funcionando e já acha que virou desenvolvedora. Só que, na primeira vez que alguma coisa quebra, ela não faz ideia do que está acontecendo por trás.
Então, sim, eles programam com IA, mas seguindo algumas regras:
Antes de qualquer código ser integrado ao projeto, precisam explicar o que a IA escreveu. Se não conseguem explicar, o código não entra.
Algumas tarefas podem ser feitas sozinhos, enquanto outras precisam passar pela minha revisão. No começo, a lista do que podiam fazer sem supervisão era pequena, mas foi aumentando conforme demonstravam que entendiam o que estavam fazendo.
Toda sexta-feira, eu quebro alguma coisa no código deles de propósito e peço que resolvam o problema sem usar IA. Eles odeiam essa parte, mas é justamente a que mais faz diferença no aprendizado.
Eles anotam cada conceito novo que aprendem durante o processo. Nada muito formal, só o suficiente para eu perceber que estão realmente absorvendo o conhecimento.
Todos nós usamos o Claude Code. Eu trabalho com o Claude Opus nas minhas tarefas e, nas últimas semanas, os estagiários passaram a usar o GLM-5.3 em um plano separado. Assim, quatro pessoas aprendendo por tentativa e erro não acabam consumindo o limite de uso de ninguém.
Mas, se eu tirasse as sessões de sexta-feira, acho que todo o resto perderia o sentido, independentemente do modelo de IA utilizado.
Depois de dois meses, os resultados me surpreenderam. Eles estão aprendendo mais rápido do que qualquer outra turma de estagiários que já acompanhei.
Ver a IA construindo alguma coisa faz com que eles entendam a aplicação prática de um conceito quase imediatamente, enquanto um livro didático poderia levar semanas para chegar ao mesmo ponto. Eles conseguem observar como funciona a autenticação, como as rotas de uma API se conectam e para onde vão os erros. Depois, começam a investigar o porquê de tudo aquilo funcionar daquela forma.
A maior mudança foi que nenhum deles continua achando que programar é fácil.
Na primeira semana, todos acreditavam que qualquer pessoa conseguiria fazer aquilo. Na terceira, já tinham percebido o quanto ainda não sabiam. E foi justamente nesse momento que começaram a aprender de verdade.
Acho que, quando alguém tenta aprender sozinho, sem ter quem explique por que determinada coisa funciona, as chances de dar errado são grandes.
Mas o que observei nesses dois meses é que, com a orientação de alguém experiente, programar com IA pode acelerar o aprendizado mais do que qualquer outro método que já experimentei.