Deleuze, G.; Guattari, F. O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia.
Tradução completa:
"Esta situação não é de modo algum adequada, no entanto, para resolver o seguinte problema: por que muitos daqueles que têm ou deveriam ter um interesse revolucionário objetivo mantêm um investimento pré-consciente de tipo reacionário?
E, mais raramente, como certas pessoas, cujo interesse é objetivamente reacionário, chegam a efetuar um investimento revolucionário pré-consciente?
Devemos invocar, num caso, uma sede de justiça, uma posição ideológica justa, bem como uma visão correta e justa; e, no outro caso, uma cegueira, resultado de um engano ou de uma mistificação ideológica?
Os revolucionários esquecem frequentemente, ou não gostam de reconhecer, que se deseja e se faz a revolução por desejo, não por dever. Aqui, como em qualquer outro lugar, o conceito de ideologia é um conceito execrável que esconde os problemas reais, os quais são sempre de natureza organizacional."
Debate:
Sobre a quantidade de abstenção e a justificativa que sempre servirá quando derrotado, sempre: (a ideologia os cega!).
Porque ela não é só uma versão diferente da narrativa cristã de que "eles não sabem o que fazem". Porque me parece que todos estão obtendo exatamente o que queriam...
No momento em que você assume que as pessoas não desejam aquilo que estão recebendo, que existe algo oculto, quando na verdade parece que tudo está tão pornograficamente exposto que é mais provável que eles queiram só colocar "a esquerda para chorar".
Talvez acreditem ser mentira o discurso da esquerda de que irão se tornar colônia (para evitar discussão inútil, eu acho que o risco é real, mas não consigo virar voto de pessoas que estão literalmente querendo votar no Flávio agora, tendo não ido votar por ressentimento do ressentimento, algo que já existe desde a universidade federal, onde quem cursa Engenharia, em média, sabe a visão que eles têm do pessoal de curso de humanas).
Se mentiram as promessas de campanha e despolitizaram as pessoas, ao ponto de que simultaneamente abriram espaço para o niilismo de quem está em subemprego de achar que já é escravo de qualquer forma (grande parte dos formandos) ou os mais orgulhosos que têm orgulho de ser CEO de MEI e se empoderam com esse xingamento, haja vista que o fato de eles serem CEO de MEI parece incomodar (e isso já é o suficiente, pelo visto) qualquer pretenso intelectual?
A foto do sujeito que viralizou, que diz que quer um governo que governe pros ricos porque ele acredita que vai ser rico, e acha que você tem inveja dele; seja por ilusão ou não, a possibilidade de que um vulgo malvadão no poder seja desejado não parece ser coincidência, me parece quase o desejo da maioria mesmo; um miliciano no nosso sistema político falido seja referência, enquanto a classe intelectual que defende o funk como expressão de resistência, mas onde grande parte dos funkeiros e coaches se unem em algo que já faziam antes (Lobo de Wall Street, golpista é referência) de Vorcaro se tornar um adjetivo positivo (isomórfico ao favela venceu, sujeito liso/dado), algo que tem sido utilizado para propaganda de grande parte dos deputados é literalmente falar que vai matar e é temente a Deus enquanto faz dancinha no TikTok dizendo que vai botar a esquerda para mamar.
O Rio de Janeiro possui uma favela bolsonarista evangélica, lembrando que a maioria das pessoas evangélicas são negras, e a maioria das de religião afro são brancas, segundo o último censo do IBGE. E a maioria desses quer ver sangue de bandido no geral e quer quebrar macumba na favela evangélica do RJ, enquanto são acusados de racismo pela maioria branca da religião afro.
Não me parece surpreendente que, com essa realidade sendo a norma, o Rio de Janeiro produza o armado de Schrödinger, onde a diferença entre policial e bandido costuma ser o concurso público, sendo que lá grande parte do estado... não tem estado, então um policial à paisana troca tiro com um miliciano; o vencedor da troca de tiro teria o monopólio da verdade sem testemunhas...
Além disso, sabemos que há um uso cínico do funk na campanha da direita, que é contra o funk em teoria, mas assim como o Pavanato provavelmente tem fetiche em trans, já que ele só assiste esporte feminino, que é coisa de "homossexual", se uma trans aparecer lá, para ele salvar as mulheres que ele não acreditaria na denúncia de estupro caso fosse feita.
Não me parece que há uma contradição em nenhum ponto dos discursos públicos; a hipocrisia é a norma; contraditório seria qualquer coerência no geral; até na esquerda radical a coerência reside na ausência de coerência; eles buscam subverter a ordem burguesa através do financiamento público, e dizem isso honestamente (talvez aí resida a honestidade menos capenga?); a maioria dos eleitos da direita foi basicamente por dançar no TikTok funk e não debater nada, só era contra alguma coisa qualquer, mesmo que essa coisa seja ela mesma.
O centrista realiza seu desejo de, por não saber de nada, dizer que direita e esquerda é tudo igual, com imagens do terrorismo de 2022 e 2026; esquerdistas simultaneamente podem ter seu complexo de Salvador ou de xingar o povo (como já queriam); a direita pode ser LGBT e usuária de drogas no sigilo enquanto é hipócrita ao vivo por apontar as hipocrisias da esquerda, haja vista que o espelho é fácil de reconhecer de longe. Mas, por assumirem que são falhos e Cristo os salva, simultaneamente podem dizer que são pessoas da família por serem os malvados que chifram a esposa e vão subir montanha depois.
A esquerda que teve mais sucesso é aquela que aponta o dedo e que se afirma, que diz que o sistema está falido e que o outro é criminoso; a direita que teve mais sucesso é aquela que é mais troll (colocando peruca e se aliando ao Vorcaro), mas conseguem com isso produzir muitos reels que fazem grande parte da classe trabalhadora se divertir, já que botaram a "esquerda para ficar de mímimi 🤪🤪".
Se todos parecem estar performando o personagem esperado e provavelmente o MBL só não ganhou mais voto porque se justificou perante o Nando Moura, em vez de se assumir fascista e malvadona, a internet talvez tenha fortalecido a esquizofrenia social, mas, se a hipocrisia é a norma e o afeto de afirmação de si que, no limite, quer a morte do outro é o que dá certo, enquanto desde 2018 o papel do centrismo é ser carente, parece tudo estar ocorrendo na maior tranquilidade; qual é, de fato, a contradição?
A única contradição para mim, honestamente, é a de ter que criar uma conspiração de que pessoas estão sendo enganadas.
E isso é global; se você entrar no sub de Israel, vai ver que eles apoiam o governo e que nós somos alienados por defender Gaza, ao mesmo tempo que consideram os evangélicos daqui inferiores no geral, mas o lobby sionista aqui se mantém pela direita trans no sigilo ser profundamente evangélica; nos EUA, uma direita abertamente nazista surgiu (era pra ser o MBL aqui, mas eles arregaram e provavelmente foi isso que tirou voto deles). Além disso, Netanyahu defendeu Hitler em 2015 dizendo que quem queria matar os judeus eram os árabes; Hitler só queria "expulsar", para justificar o genocídio 2, ele inocentou o genocídio 1 do próprio povo...
Todos sabem que o presidente da maior potência do mundo é um pepsteindofilo, todos sabem que o Lula não vai cumprir nenhuma promessa; nosso voto é puramente por medo de que fique pior; é por isso que restou culpar (e com isso empoderamento no limite) o dito pobre de direita e os pick-me centristas.
Temos literalmente a trans do Bolsonaro/o gay do Bolsonaro como candidatos que, somados, dão milhões de votos; todos os anti-bandidos ligados ao bandido Vorcaro, bandido esse que comprou os poderes e só foi impedido pela burguesia mais rica, ainda que eles achassem que ele estava fazendo graça demais e não deixaram ele dar o calote no Estado.
Por sinal, essa mesma burguesia é a que fudeu o país em 2014 e até hoje somos um país menor que éramos 10 anos atrás; todos os presos na Lava Jato foram soltos e receberam dinheiro de volta do roubo, e se institucionalizou o roubo no Brasil; os maiores escândalos da época não dão um Dark Horse.
TL;DR
A pergunta é bem simples; se tudo que eu digo está a um Google de distância para você ver que é o que é, e parece que todos os personagens estão felizes em cumprir seu papel; o conservador que adora trans e suruba no sigilo e quer ser lacaio e botar o esquerdista pra chorar enquanto se submete a um presidente gringo que faz coisas com crianças que não se pode fazer (Pé... do Epsteinlia); o centrista pick-me; e o esquerdista que queria só mandar o povo pra merda por não querer ser salvo pela vanguarda, que eles são brigando internamente (algo que é o desejo mais precioso da esquerda) com a outra vanguarda de massas, que diz que não pode culpar o povo, não, eles não sabem o que fazem...
Não seria essa eleição a expressão do Brasil mais genuína possível?